abril 28, 2012

A geração de ontem e a geração de hoje


Não precisa passar muito tempo em qualquer uma das quinhentas redes sociais existentes para ser entupido de imagens como esta acima. A perseguição à geração mais nova é um hobby que não se sabe desde quando existe (pelo menos eu não sei). Crescemos ouvindo, todo o tempo, nossos pais reclamarem de que as coisas não são mais como eram antes, que as coisas nos tempos deles eram bem diferentes, as brincadeiras eram melhores, os brinquedos eram melhores e mais lixo desse tipo. A geração dos anos 90 já entrou nessa fase e já está tão chata quanto nossos pais nesse quesito. 

A super-maravilhosa-magnífica-perfeita geração dos anos 90, que hoje são adolescentes e alguns adultos (em termos de idade, claro...), gasta bons minutos - ou até mesmo horas - de seus dias compartilhando imagens, escrevendo, detonando as crianças de hoje. Imagens como esta acima são tão hipócritas que o estômago de uma pessoa sensata revira, embrulha, se retorce. Parece que, ao entrar na adolescência, a super-maravilhosa-magnífica-perfeita geração dos anos 90 esqueceu de tudo de ruim que fez.


Primeiramente, criança sempre será criança, seja a época que for, ela sempre se comportará como uma. Faço parte da super-maravilhosa-magnífica-perfeita geração dos anos 90 e quando criança fui muitas vezes ao supermercado com meus pais para fazer as compras do mês, atividade ainda em alta nos dias de hoje. Não consigo me lembrar de quantas vezes vi crianças com brinquedo na mão berrarem, se jogarem no chão e chorarem rios de lágrimas tudo porque a mãe não quis comprar aquele brinquedinho mais caro que parecia ser mais bacana, mas foram muitas as vezes. Me recordo de já até ter feito coisa parecida.

E a nossa super-maravilhosa-magnífica-perfeita geração dos anos 90 se gaba por ter passado horas de seus dias de criança na frente de um televisor analógico colorido, com um controle de Super Nintendo na mão jogando Super Mario e muitos outros jogos que custaram muito no bolso dos pais, porém reclamam na infância tecnológica de hoje. Se um adolescente desses tivesse tido contato com um iPad em sua época de moleque babão, com certeza sairia do mercado implorando para ter um. Imagina que maravilha jogar Angry Birds puxando os passarinhos com os próprios dedinhos, sem interferência de um controle? Imagina poder jogar todos os seus joguinhos num aparelhinho portátil? Não era à toa que muitas crianças choravam para ter um Game Boy, não era touch screen, mas era portátil. Veja bem, você podia jogar em qualquer lugar! Podia levar com você onde você fosse! As crianças dos anos 90 queriam usufruir de toda a tecnologia que lhes era disponível, as crianças de hoje não são diferentes. Até mesmo os jovens que foram as crianças do Super Nintendo só querem saber do que há de mais novo em termos de tecnologia - e em outros termos também.

A maioria dos participantes do movimento "geração anos 90: a melhor" tiveram, ou responderam, um daqueles caderninhos com quase cem perguntas, no comecinho de suas juventudes. Todo mundo deve lembrar o teor de certas perguntas dos cadernos, coisas como "você é virgem?", "qual a sua fantasia sexual?", "já transou com alguém do mesmo sexo?" e outras mais. Mas estes são os mesmos que dizem que as meninas de doze anos de hoje, também no começo de suas juventudes, só pensam em sexo e arrumar namorado. Ora, sexo foi assunto de roda de conversa de amigas quando eu estava na terceira série. Na quarta série já falávamos sobre se tocar (masturbação, pros leigos) e muitas, inclusive eu, já praticávamos. Na quinta série se a professora de ciências falasse "pênis" começavam a rolar os risinhos e piadinhas. Na sexta série eu tinha amigas grávidas, amigas que já haviam transado e mesmo que nem tivessem, falavam que sim para parecem mais cool.

Sonho de muito jovem de hoje
que foi uma criança de ontem.
As crianças de hoje não brincam mais nas ruas. Certo. E compreensível. Se você fosse pai ou mãe, deixaria seu filhinho na rua, nos dias de hoje? Com muito mais carros pra lá e pra cá do que há dez anos? Com muito mais bandidos na rua? Mesmo assim, ainda hoje vejo muitas crianças correndo pelas ruas, estou tendo ilusões?

As crianças de hoje não sobem mais em árvores. Ok, mas também é compreensível, se levarmos em conta que o número de pessoas morando em apartamentos hoje é bem maior que há dez anos, mas ainda vejo muitas delas brincarem em árvores, deve ser tudo alucinação. E as árvores existem em número bem reduzido atualmente. Um minuto de silêncio agora. Pronto. Isso tudo não é culpa das crianças, nem do video-game de última geração.

Os desenhos que eu assistia quando criança, que inclui Bob Esponja, Liga da Justiça, Ursinhos Carinhos, Dragon Ball e a coisa toda, ainda passa na TV. As crianças de hoje sabem sim o que é assistir Coragem, o Cão Covarde e Chaves, porque, adivinhem só, isso tudo ainda passa na TV, que hoje é digital e em alta definição. Chupa super-maravilhosa-magnífica-perfeita geração dos anos 90 .

Se criança hoje em dia fala muito mais palavrão, a culpa não é dela. Ela provavelmente está aprendendo isso em casa, com os pais ou com irmãos mais velhos. Logo, a culpa é das gerações anteriores. Apontem o dedo pra cara certa, pelo menos.

A geração 2000 não é pior nem melhor que a geração de 90, de 80 e nem melhor ou pior que nenhuma outra. São todas iguais, dentro de seus contextos sociais. Crianças sempre berrarão. Indivíduos no início da puberdade com suas explosões de hormônios sempre pensarão em sexo. Adolescentes mais velhos e adultos sempre reclamarão da geração mais nova. 

Quem dera a geração de 90 fosse essa magnitude toda, haveriam mais adolescentes que saberiam o que é uma mitocôndria e sua importância, o que é um bóson ou, pelo menos, usar os porquês. Mas infelizmente não é assim. A maioria desses coxinhas acham que evolução biológica significa que um belo dia uma macaca pariu um ser humano. Espero que a geração nova se saia bem nisso, pelo menos.

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