Quando surgiu toda aquela polêmica das cotas sociais para
universidades públicas fui logo tomando minha posição: contra. Era bem
claro, na minha cabeça, que se qualquer um estudasse e se empenhasse
poderia passar numa universidade pública tranquilamente. Mas, de
repente, percebi que não é bem assim. Uma dose de bom senso caiu sobre
mim, o que me fez lembrar de umas coisas e montar um pequeno
quebra-cabeça que me levou a tomar uma posição totalmente contrária à
inicial.
A que classe eu pertenço?
Eu nunca passei fome. Minha família teve alguns momentos difíceis, mas nada que chegasse ao extremo. Apenas precisei largar a escola por um ano pra cuidar da minha irmã de apenas três meses, porque minha mãe precisava voltar a trabalhar, se ela não voltasse, aí sim passaríamos fome. Durante a infância eu pude ter brinquedos, durante a adolescência eu pude ter livros, eu pude até ir à escola! Eu nunca precisei trabalhar pra ajudar no sustento da casa, só fui trabalhar com 18 anos, quase 19, depois de ter concluído o Ensino Médio.
Tirando a fase da depressão, nada atrapalhou meus estudos. Eu não
tinha outras responsabilidades, eu não precisava tê-las. Minha única
responsabilidade era estudar. Assim que comecei a trabalhar entrei num
cursinho pré-vestibular, pois estudei em escola pública, numa das
piores, nem de longe eu poderia competir num vestibular com um aluno de
uma escola particular ou militar, não com o pouco que me ensinaram no
Ensino Médio.
Mas a lucidez ainda não havia chegado, mesmo vendo aquele pessoal do
cursinho que estudava nas melhores escolas particulares do Distrito
Federal, que estavam ali fazendo um dos melhores cursinhos da região,
que não precisavam trabalhar. Foi aí que me senti inferior pela primeira
vez, eu precisava trabalhar pra pagar o cursinho e trabalhar
prejudicava o meu rendimento. Nunca que eu teria chance contra um deles
num vestibular.
Mas eu passei a pensar pelo lado bom da coisa: eu tinha tido a sorte
de ter conseguido terminar o Ensino Médio e a sorte de ter conseguido um
emprego onde eu recebia mais que um salário mínimo. E ainda por cima,
eu tinha a sorte de ter todo o meu dinheiro pra mim, eu não precisava
ajudar na casa. Sim, isso é sorte, é privilégio. Existem pessoas que
moram tão longe de uma escola que não podem estudar, logo, não podem
conseguir um bom emprego. Existem pessoas que precisam trabalhar o dia
inteiro pra ajudar no sustento da casa, não podem nem pensar em estudar,
a universidade é um sonho muito distante pr’a essas pessoas, mais
distante do que era pra mim.
Passei numa federal, significa que todos conseguem?
Enfim, consegui passar pr’a uma federal, num dos cursos que eu tinha vontade de fazer, que não é nem um pouco concorrido. Mas e quem tem vontade de fazer um curso mais concorrido e não tem os mesmos privilégios que eu tive?
Colocar um aluno que teve o melhor ensino durante sua vida pra
competir com um que mal tinha professores é covardia. É desigual. A
prova de vestibular é igual para ambos, mas um deles tem muito mais
chances de conseguir e não é necessariamente por ele ter se esforçado
mais, na maioria dos casos não é esse o motivo. Ele não se esforçou mais
(não necessariamente), ele só teve mais sorte, ele teve o privilégio de
ter um bom ensino e o privilégio de ter tempo pr’a se dedicar.
Minha universidade é no nordeste, se você entrar numa turma
de Medicina, Engenharia etc, você vai dar de cara com um turma de
brancos, brancos e ricos. Praticamente todos oriundos de escolas
particulares combinado a bons cursinhos e tempo pra estudar. Não é por
acaso.
Então é só melhorar o ensino público que tudo se resolve?
Melhorar o ensino público levaria anos, décadas. E esse processo está bem longe de começar. Até lá, quem nasceu pobre vai ter que continuar fora da universidade? Isso vai muito além de melhorar o ensino. De nada adianta ter um ensino de qualidade disponível mas não ter oportunidade de aproveitá-lo, porque o adolescente pobre tem que se preocupar mais em levantar cedo para trabalhar e ajudar a sustentar a família. O problema é social. O problema está em ser pobre num país onde tudo parece ser feito para ricos.
Mas eles vão roubar minha vaga na universidade!
E quem disse que a vaga é sua? Esse é o problema desse tipo de
privilegiado: achar que ele tem o direito irrevogável a alguma coisa. É
fato que as vagas vão diminuir pra você, aluno de escola particular e
rico, mas vamos pensar no seguinte: todas as vagas disponibilizadas em
todas as universidade públicas são praticamente só para alunos que têm o
seu perfil! Universidades públicas, principalmente os cursos mais
concorridos, são para alunos de escola particular ou militar, que são
ricos, que estudaram em boas escolas a vida inteira, que a única
responsabilidade que tinham durante a adolescência era estudar. Um aluno
de escola pública comum não tem a mínima chance de competir.
Finalmente achei o bom senso
Não foi de uma hora para a outra que me convenci de que as cotas eram
necessárias. Me precipitei muito em afirmar certas coisas, escrevi
muita besteira por aí da qual me arrependo, mas vão ficar por aí. Não
entrei na universidade por cotas, mas isso não me faz nem um pouco
melhor do que quem entrou por elas. Se você ainda é contra as cotas
sociais, se pergunte: é justo deixar de fora alguém que não teve as
mesmas oportunidades que eu? Que não teve o mesmos privilégios que eu?
Você não merece mais que os outros. É claro que passar numa federal
ou estadual exige esforço, mas exige de ambos, e exige muito mais
daquele que não teve as mesmas oportunidades que você.
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