julho 17, 2013

Sobre as cotas sociais

Quando surgiu toda aquela polêmica das cotas sociais para universidades públicas fui logo tomando minha posição: contra. Era bem claro, na minha cabeça, que se qualquer um estudasse e se empenhasse poderia passar numa universidade pública tranquilamente. Mas, de repente, percebi que não é bem assim. Uma dose de bom senso caiu sobre mim, o que me fez lembrar de umas coisas e montar um pequeno quebra-cabeça que me levou a tomar uma posição totalmente contrária à inicial.

A que classe eu pertenço?

Eu nunca passei fome. Minha família teve alguns momentos difíceis, mas nada que chegasse ao extremo. Apenas precisei largar a escola por um ano pra cuidar da minha irmã de apenas três meses, porque minha mãe precisava voltar a trabalhar, se ela não voltasse, aí sim passaríamos fome. Durante a infância eu pude ter brinquedos, durante a adolescência eu pude ter livros, eu pude até ir à escola! Eu nunca precisei trabalhar pra ajudar no sustento da casa, só fui trabalhar com 18 anos, quase 19, depois de ter concluído o Ensino Médio.
Tirando a fase da depressão, nada atrapalhou meus estudos. Eu não tinha outras responsabilidades, eu não precisava tê-las. Minha única responsabilidade era estudar. Assim que comecei a trabalhar entrei num cursinho pré-vestibular, pois estudei em escola pública, numa das piores, nem de longe eu poderia competir num vestibular com um aluno de uma escola particular ou militar, não com o pouco que me ensinaram no Ensino Médio.
Mas a lucidez ainda não havia chegado, mesmo vendo aquele pessoal do cursinho que estudava nas melhores escolas particulares do Distrito Federal, que estavam ali fazendo um dos melhores cursinhos da região, que não precisavam trabalhar. Foi aí que me senti inferior pela primeira vez, eu precisava trabalhar pra pagar o cursinho e trabalhar prejudicava o meu rendimento. Nunca que eu teria chance contra um deles num vestibular.
Mas eu passei a pensar pelo lado bom da coisa: eu tinha tido a sorte de ter conseguido terminar o Ensino Médio e a sorte de ter conseguido um emprego onde eu recebia mais que um salário mínimo. E ainda por cima, eu tinha a sorte de ter todo o meu dinheiro pra mim, eu não precisava ajudar na casa. Sim, isso é sorte, é privilégio. Existem pessoas que moram tão longe de uma escola que não podem estudar, logo, não podem conseguir um bom emprego. Existem pessoas que precisam trabalhar o dia inteiro pra ajudar no sustento da casa, não podem nem pensar em estudar, a universidade é um sonho muito distante pr’a essas pessoas, mais distante do que era pra mim.

Passei numa federal, significa que todos conseguem?

Enfim, consegui passar pr’a uma federal, num dos cursos que eu tinha vontade de fazer, que não é nem um pouco concorrido. Mas e quem tem vontade de fazer um curso mais concorrido e não tem os mesmos privilégios que eu tive?
Colocar um aluno que teve o melhor ensino durante sua vida pra competir com um que mal tinha professores é covardia. É desigual. A prova de vestibular é igual para ambos, mas um deles tem muito mais chances de conseguir e não é necessariamente por ele ter se esforçado mais, na maioria dos casos não é esse o motivo. Ele não se esforçou mais (não necessariamente), ele só teve mais sorte, ele teve o privilégio de ter um bom ensino e o privilégio de ter tempo pr’a se dedicar.
Minha universidade é no nordeste, se você entrar numa turma de Medicina, Engenharia etc, você vai dar de cara com um turma de brancos, brancos e ricos. Praticamente todos oriundos de escolas particulares combinado a bons cursinhos e tempo pra estudar. Não é por acaso.

Então é só melhorar o ensino público que tudo se resolve?

Melhorar o ensino público levaria anos, décadas. E esse processo está bem longe de começar. Até lá, quem nasceu pobre vai ter que continuar fora da universidade? Isso vai muito além de melhorar o ensino. De nada adianta ter um ensino de qualidade disponível mas não ter oportunidade de aproveitá-lo, porque o adolescente pobre tem que se preocupar mais em levantar cedo para trabalhar e ajudar a sustentar a família. O problema é social. O problema está em ser pobre num país onde tudo parece ser feito para ricos.

Mas eles vão roubar minha vaga na universidade!

E quem disse que a vaga é sua? Esse é o problema desse tipo de privilegiado: achar que ele tem o direito irrevogável a alguma coisa. É fato que as vagas vão diminuir pra você, aluno de escola particular e rico, mas vamos pensar no seguinte: todas as vagas disponibilizadas em todas as universidade públicas são praticamente só para alunos que têm o seu perfil! Universidades públicas, principalmente os cursos mais concorridos, são para alunos de escola particular ou militar, que são ricos, que estudaram em boas escolas a vida inteira, que a única responsabilidade que tinham durante a adolescência era estudar. Um aluno de escola pública comum não tem a mínima chance de competir.

Finalmente achei o bom senso

Não foi de uma hora para a outra que me convenci de que as cotas eram necessárias. Me precipitei muito em afirmar certas coisas, escrevi muita besteira por aí da qual me arrependo, mas vão ficar por aí. Não entrei na universidade por cotas, mas isso não me faz nem um pouco melhor do que quem entrou por elas. Se você ainda é contra as cotas sociais, se pergunte: é justo deixar de fora alguém que não teve as mesmas oportunidades que eu? Que não teve o mesmos privilégios que eu?
Você não merece mais que os outros. É claro que passar numa federal ou estadual exige esforço, mas exige de ambos, e exige muito mais daquele que não teve as mesmas oportunidades que você.

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